Com licença, escritora passando...
Papo de Escritora No. 42: O erro como continuação.
Na minha época de escola, a melhor invenção de que tenho lembrança era o lápis-bocharra, que prometia apagar tinta de caneta. Quando o erro em tinta acontecia, bastava esfregar a ponta branca do lápis sobre o vergonhoso ponto. Tenho para mim que o erro era condenado ao esquecimento mais pela fricção danosa do papel do que de fato por uma capacidade de apagar a tinta. Não guardo uma boa lembrança desse lápis.
E talvez porque conheci esse lápis (que ainda existe, vejam só!) olho com certo maravilhamento para as novas tecnologias que surgiram e se diversificaram. Hoje a própria caneta porta o antídoto para a sua marca, seja a caneta comum ou a marca-texto. E eis que não fica nenhum vestígio! É como se o erro nunca tivesse estado ali. Concluo assim que os tempos atuais são, pelo menos nesse meio analógico que é o papel, mais tolerantes ao erro. A possibilidade de impermanência dos traços dá mais liberdade para experimentar e testar e seguir com a vida sem se martirizar.

Borracha gigante
“Você precisaria de um estojo a parte só para carregar essa borracha gigante, isso é ridículo! É como carregar consigo um atestado de incompetência, é como estar atrelado aos próprios erros o tempo todo!”, diz a vozinha condenatória na minha cabeça. Mas a vozinha criativa não vê dessa forma. Carregar uma borracha gigante seria como carregar novas possibilidades. Um erro não é o fim, porque ele pode se transformar em outra coisa. Seria uma lembrança para mim mesma de que há solução.
O erro bagunça ideias, espaços, programações. O erro cria choro, faz mancha, muda cardápio, inventa surpresas - quando não estamos a fim de supresa nenhuma. Personalidades mais ligadas à disciplina e à organização tendem a ser mais intolerantes ao erro. O deslize é uma espécie de buraco que se abre sob os pés e não é fácil sair dele. Essa intolerância está ligada à cobrança que se faz de si mesma e dos outros e ao espaço que se dá para as coisas sairem diferente do esperado. Quanto maior a cobrança e menor o espaço, maior a intolerância. Só que tudo não passa de uma grande ilusão! Não temos controle sobre nada. Admitir isso é uma forma de admitir que somos humanos. E daí, por consequência lógica, deve ter surgido o ditado: errar é humano.
Seguir em frente
Faz dois meses desde que comecei a treinar com um grupo de taiko. É a primeira vez que aprendo a tocar um instrumento de percussão. E não se trata somente de aprender a tocar o instrumento, mas também incorporar toda a cultura que o envolve, desde as posturas aos ritmos. É a primeira vez que participo de uma atividade musical em grupo. Certo dia retornei para casa muito pensativa. Em várias ocasiões errei batidas durante o treino ou percebi alguém do grupo errar. Minha atitude era sempre parar. O erro acontecia e eu parava, achando que dali não dava para seguir. Ficava perdida e precisava voltar atrás e fazer tudo de novo. Mas observando os demais, percebi que não é assim que o grupo lida. O erro de alguém acontece e tudo segue normalmente. Todos sabem que a batida aconteceu fora do lugar, que o tempo descompassou, mas ninguém parece ligar, todos continuam tocando. Porque o que importa não é a perfeição, mas a capacidade de encontrar novamente o ritmo e o tempo e a sequência correta das batidas. A capacidade de se recuperar depois do tombo.
Que lição! Depois desse entendimento, ganhei uma perspectiva totalmente nova sobre os meus erros e daqueles que me rodeiam. Acho que posso dizer que adquiri certa porção de tolerância. Agora não paro mais, sigo em frente.
E se não houvesse medo?
Esse seguir em frente não significa que tanto faz como tanto fez. Ainda há o desejo genuíno de acertar e a ocorrência do erro interfere menos no processo de tentar.
Paro para refletir e chego a boa e velha conclusão de que muito desse medo de errar está associado ao receio do que os outros vão pensar. “Farei papel de boba na frente das pessoas!” Já escutei outra escritora dizer: “Na verdade, ninguém está olhando.” Esse medo também surge de um lugar ensimesmado e egoísta.
Me dou conta ainda de que quanto mais a pessoa se expõe e se permite testar novas práticas e criar novos caminhos, mais sujeita ao erro ela está, pela própria novidade da coisa toda. E quanto mais exposta, menos permissão para errar ganha. É um paradoxo que a gente também aprende a manejar trabalhando essa questão do medo.
Nunca será demais citar o livro de Michal Oshman entitulado “What would you do if you weren’t afraid?” (para o qual defendo com veemência uma versão em português). Sempre que me vejo tentando fugir de uma oportunidade, me faço essa pergunta. O que eu faria se não tivesse medo? Normalmente a resposta corrobora com assumir o risco e tentar a oportunidade. É claro que dizer sim para a oportunidade não faz o medo sumir. O medo de errar continua gritando e lançando pensamentos intrusivos e querendo tirar o sono. Mas já não tem uma força dominadora, paralisante. Coloco minha borracha gigante imaginária no bolso e sigo em frente.
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Transparênsia (ops!) Transparência
Imagino a cena. Um despertar noturno repentino, cabelo molhado de suor, coração acelerado. Poderia ser um pesadelo. Seria bom se fosse um pesadelo. Mas é real. O texto foi publicado e esqueci de colocar crase naquele a. O porque ficou junto/separado, com/sem acento quando deveria ser sido escrito do outro jeito. Agora TODOS vão saber que sou uma escritora fajuta.
Erros ortográficos são o terror de quem escreve. Erros de concordância podem ser fruto de uma confusão fortuita, mas os ortográficos…Para eles não há desculpa. E dão uma sensação infinita de inabilidade. Sou seletiva quanto aos erros? Alguns tolero enquanto outros permanecem inadmissíveis?
Aprendo a não me importar com isso também. Em um mundo em que poderia pedir a IA para revisar meus textos, prefiro continuar do jeito arcaico (e sujeito a erros) de fazer por mim mesma. Você não me vê e eu não te vejo, mas ainda somos dois seres humanos em contato, unidos por esse fio chamada texto. E gosto da ideia de que tudo transpareça isso. As escolhas de palavras, as cadências das frases e até os erros. Você me conhece como sou, meu coração e minha humanidade.
Sou obrigada a admitir que a idade ajuda nessa aceitação. Menos filtro, menos fingimento. E na redução do tempo a gente vai tentando se concentrar no que realmente importa. Acho que o que mais importa nesse momento é parar de se restringir por medo de não dar certo. À minha frente, pendurado na parede do escritório, há um quadro que comprei alguns anos atrás. Nele está escrito assim: “If you never try you'll never know” - “Se você nunca tentar você nunca vai saber”. É isso.
Quão intolerante ao erro você se considera? Qual sua estratégia para lidar com ele? Deixe aqui seu comentário 😁👇🏼
Lembro do trecho do filme “Vida de Inseto” (Pixar, 1998) em que uma folha cai no meio da trilha de formigas. Embora a fila continue logo a frente, a pobre formiga interrompida em sua trajetória pela folha não sabe o que fazer. Então, com a ajuda de outra formiga, ela consegue contornar a folha e o trabalho continua. Vejo que o erro é como essa folha que cai sem aviso prévio e interrompe o curso desejado das coisas. Mesmo tendo a perspectiva micro de uma formiga, somos convidadas a descobrir uma forma de contorná-la e encontrar novamente o caminho.
Esta edição vai ficando por aqui. A próxima está programada para a primeira sexta-feira de julho. Até lá, a gente vai trocando ideias pelo Instagram e por meio dos conteúdos extras na aba Notes. Que neste mês os erros se tornem para você como vírgulas em vez de pontos finais. Fique bem e até breve!
Um abraço,




Texto muito interessante e necessário, Carla. Também comecei a me permitir não ir "tão bem em tudo". Comecei a fazer aulas de aquarela e a sensação de "falta de controle"- da mão, da tinta ou das duas! - é terrível. Mas continuo a fazer aulas e a errar! E isso me parece, agora aos 55, muito certo. Pena que não descobri antes! Bjs