Vida (extra)ordinária
Papo de Escritora No. 41: Dando lugar de destaque para as coisas comuns e maravilhosas desta vida
O CARRINHO DE MÃO VERMELHO
tanta coisa depende
de um
carrinho de mão
vermelho
esmaltado de água de
chuva
ao lado das galinhas
brancas
1 - William Carlos Williams
O poema acima foi publicado em 1923. Ele foi escrito por um poeta norte-americano chamado William Carlos Williams. Quando tomei conhecimento a respeito dele senti que precisava conhecer mais do seu trabalho. Alguém que acha um carrinho de mão digno de um poema, merece a minha atenção.
Na biblioteca encontrei um livro com uma coletânea de poemas seus (“William Carlos Williams - Poemas”, Companhia das Letras, 1987). Na introdução, escrita por José Paulo Paes podemos ler assim:
“O destaque dado à banalidade cotidiana é inversamente proporcional à frequência com que os grandes temas e as alusões eruditas, cavalo de batalha da poesia de Pound e Eliot, aparecem na de Williams.”
Ezra Pound e T.S. Eliot foram compatriotas e contemporâneos seus. Em sua carreira como poetas, escolheram deixar a América e viver na Europa, dedicando-se aos “grandes temas” como pontuado por Paes. Ao contrário, Williams permaneceu em sua terra natal e escolheu colocar sua lente de interesse sobre as trivialidades, objetos, cenas e pessoas do cotidiano. Esse “princípio de ficar em casa” atribuído a ele tem para mim um sentido literal e metafórico. Ficar em casa representa o que é mais óbvio e conhecido, comum, corriqueiro, mas no caso de Williams, não sinônimo de mesmice. Muita sensibilidade é exigida para remover de sobre as experiências do dia a dia o filtro da banalização, revelando sua verdadeira e magnífica forma. Diferente de seus pares, Williams realizou um trabalho poético relevante lançando luz sobre o que sempre esteve diante dos olhos das pessoas e ainda assim passando despercebido.



2 - Marcel Duchamp
Marcel Duchamp foi um artista francês naturalizado americano. Embora tenha realizado muitos trabalhos diferentes, transitando entre diferentes fazeres artísticos, rejeitava a ideia de uma categorização. Intitulava-se simplesmente um “respirador”. Foi ele quem cunhou o termo “readymade”, ou “pré-fabricado”, para se referir a objetos frequentemente produzidos em massa separados de seu uso esperado e elevados ao status de arte pela simples escolha do artista. Foi assim, pelas escolhas provocativas de Duchamp, que objetos ordinários, do cotidiano, como rodas de bicicletas e pás para remover neve, se tornaram peças em exibição.
Sua obra mais famosa, “Fountain”, a qual ele assinou com um nome fictício, não passava de um urinol e como tal foi inicialmente ignorada. Não são as peças sanitárias o epítome da trivialidade de nossas existências? Não poderia ser se não um escândalo removê-las da obscuridade e expô-las com título e assinatura como verdadeira obra de arte.
Marcel Duchamp, que também se encontrou com William Carlos Williams, abalou e expandiu os limites entre arte e cotidiano, produzindo arte por meio de utensílios comuns.
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3 - Pierre-Auguste Renoir
No artista francês reconhecemos um dos maiores nomes do impressionismo. Diz-se ser especialmente conhecido por pintar temas novos, diferentes. Isso porque à época, os temas clássicos nas pinturas estavam ligados à história, mitologia, religião. Nesse contexto, Renoir se torna um inovador ao representar nas telas uma vida mais comum, ordinária. Cenas sociais, de pessoas em restaurantes, cafés, bailes públicos, em estado de relaxamento e divertimento, interagindo por meio de olhares.
Renoir enxergou nas cenas da viva cotidiana uma joie de vivre, um contentamento digno de ser representado e, digamos, imortalizado em seus quadros.
Por que será então que nos persegue essa sede por “novidade”? O de todo dia não serve, buscamos o emocionante. Os dias de viagem, de casamento, de nascimento, de aniversário, de emprego novo. Mas se contabilizarmos no período de um ano, quantos são os dias de eventos extraordinários? O que temos a maior parte do tempo é o comum. Essa é a matéria-prima, o recurso mais abundante que possuímos.
O extraordinário nos atrai porque queremos ser super - importantes, talentosos, famosos… E assim desprezados aquilo que aparentemente nos diminui, o comum, o de sempre, a rotina, o que nos nivela na média. Mas o que podemos observar é que aquelas pessoas que souberam valorizar essa matéria banal, em vez de serem desmerecidas, se destacaram.
Se prestarmos atenção nesse cotidiano no qual estamos imersos, se conseguirmos de fato enxergar as pessoas e as coisas e as situações seremos capazes de extrair o que existe de extraordinário nisso tudo, porque ele está lá, em cada partícula, em cada fragmento de área e de tempo.
A minha proposta é tirar o corriqueiro do plano de fundo e trazer para a posição de protagonista e celebrar essa vida ordinária que nos é concedida. É uma forma de não ficar sem ideias criativas assim como não ficar sem satisfação ou motivos para agradecer.
Dá para se inspirar nos artistas acima e em outros, antigos e contemporâneos. Dá para criar sua própria arte. Arte de viver, de imaginar, de colocar as coisas que te fazem vibrar no microscópio e torná-las grandes, visíveis para mais gente apreciar.
Que coisa comum você costuma perceber e apreciar no seu dia-a-dia? Vale qualquer coisa, de comida a atitude, de momento a lugar. Deixe aqui seu comentário 😁👇🏼
Essa newsletter é fruto de pontos que me chegaram de fontes diferentes e fui conectando, enxergando neles um padrão. “Todos os caminhos levam a Roma”, diz a expressão. Aqui, tudo aponta para as miudezas que nos fazem humanos e tornam nossas existências únicas. Pedrinhas que ficam tão bonitas quando colocamos nelas nossa atenção.
Quando achamos que precisamos escapar da vida diária para produzir algo criativo ou artístico, entramos num estado de estagnação. A sensação é de estar presa, sendo engolida pelas demandas. Se ao contrário, essa mesma lida diária é vista e usada como aquilo que alimenta essa chama criativa e artística, o próprio ingrediente para trazer algo a luz, tudo muda de figura. Não precisamos estar em nenhum outro tempo ou lugar. É aqui e agora.
Esta edição vai ficando por aqui. A próxima está programada para a primeira sexta-feira de junho. Até lá, a gente vai trocando ideias pelo Instagram e por meio dos conteúdos extras na aba Notes. Que você tenha um mês agradável e que não falte admiração por cada dia (extra)ordinário. Fique bem e até breve!
Um abraço,




Oi, Carla. A sua explanação me fez lembrar do que a Ana Holanda sempre fala, que é encontrar o extraordinário no ordinário, nas coisas pequenas. Isso também me faz sentir uma identificação quando penso que, na maior parte do tempo, escrevo sobre o cotidiano. Estou sempre querendo trazer luz para o que vejo, porque assim compreendo melhor o mundo que me cerca todos os dias. Esses artistas que tratam desse universo diário e tão próximo, creio que partem de um sentimento parecido. Não posso deixar de dizer o quanto fico impressionada com a sua capacidade de captar os diversos sentidos de uma cena comum da vida. Você pinça um momento e ver toda a decomposição daquele instante aparentemente tão simples, mas na verdade, cheio de significados. Acho que é por aí, né!